Felicidade no Planejamento Estratégico

Planejar estrategicamente a atuação de uma empresa requer muito esforço e compreensão do negócio e do mercado. Para alcançar uma visão, cumprindo uma missão e respeitando valores e princípios, uma empresa deve analisar diversas características internas e externas para estabelecer um plano com objetivos e metas que orientem a sua atuação no mercado.

Não é tão difícil realizar o planejamento estratégico de um negócio. Existem no mercado ferramentas e técnicas que auxiliam gestores nesse processo de exploração, análise, síntese e criação de um plano. Autores como Michael Porter, Peter Drucker e Henry Mintzberg mostram em seus livros diversas abordagens de planejamento estratégico. As informações necessárias estão acessíveis através de pesquisas de mercado e da internet.

Entretanto, a maioria dos planejamentos estratégicos falham em sua execução porque muitos gestores esquecem que são as pessoas da empresa quem executam aqueles planos que foram cuidadosamente elaborados. Sem o comprometimento das pessoas com o planejamento estratégico, todo o esforço pode ser em vão. E não basta apenas envolver as pessoas no planejamento estratégico: é preciso colocá-las no centro deste processo, ao lado do negócio, e considerar seus desejos e sentimentos em relação ao trabalho.

Se você já leu o artigo sobre a Felicidade do Trabalho, entendeu que pessoas tristes dificilmente conseguirão resultados espetaculares. Então, por que não incluir a felicidade das pessoas como ponto chave de um planejamento estratégico? Se conseguirmos conciliar a felicidade das pessoas com todas as outras necessidades e objetivos da empresa, não teríamos resultados melhores?

Análise HS+SWOT

Um jeito simples de considerar a felicidade das pessoas no planejamento estratégico de uma empresa é utilizando a Análise SWOT (Strengths, Weaknesses, Opportunites and Threats – Forças, Fraquezas, Oportunidades e Ameaças). Esta é uma ferramenta consagrada no mercado e muito utilizada no planejamento estratégico de negócios. A partir dela, uma empresa pode analisar suas forças e fraquezas (aspectos internos), como também as ameaças e oportunidades do mercado (aspectos externos) e a relação entre essas perspectivas.

Para incluir as pessoas na análise SWOT, basta adicionar mais duas perspectivas: Felicidade (happiness) e Tristezas (sadness). Essas novas perspectivas mostrarão o que ajuda e o que atrapalha, do ponto de vista das pessoas, na execução com satisfação do trabalho. Essa é a Análise HS+SWOT.

Sugiro realizar a Análise HS+SWOT de forma participativa, envolvendo todas as pessoas da empresa. Esse trabalho pode ser dirigido por duas ou três pessoas a partir de questionários, entrevistas, grupos de discussão, pesquisas de mercado e outras abordagem para levantar as informações necessárias para a análise. Recomendo utilizar o Happiness Canvas para descobrir o que deixa as pessoas felizes e tristes na empresa.

Para facilitar esse trabalho criei o Diagrama da Análise HS+SWOT, que pode ser impresso numa folha A2 e fixado no ambiente de trabalho para reunir as informações coletadas. Você pode utilizar post-its para escrever cada informação e organizá-las nos seus respectivos quadrantes.

[DICA] Deixar esse tipo de informação exposta de forma bem visual no ambiente de trabalho é de suma importância para favorecer a participação de todos.

Diagrama da Análise HS+SWOT

Perceba que o diagrama está dividido em 3 aspectos: Pessoas, Negócios e Mercado. No aspecto Pessoas, o quadrante da Felicidade deve reunir todas as coisas que deixam as pessoas felizes, que colaboram para um trabalho bem feito e para a satisfação de todos com a empresa. Já o quadrante das Tristezas deve reunir tudo que deixa as pessoas tristes, impedindo que elas façam um bom trabalho ou que gere insatisfação em relação ao negócio.

Nos aspectos Negócios e Mercado, os quadrantes de Forças, Fraquezas, Oportunidades e Ameaças devem reunir as mesmas informações propostas pela análise SWOT tradicional, ou seja, informações sobre os pontos fortes e pontos fracos da empresa, as oportunidades de mercado que favorecem o desenvolvimento do negócio e as ameaças externas que podem comprometer os resultados desejados pela empresa.

Veja abaixo um exemplo do diagrama da análise HS+SWOT preenchido (clique na imagem para ampliar). As informações são fictícias, mas exemplificam cada quadrante.

Exemplo de utilização do Diagrama da Análise HS+SWOT

Depois de obter todas as informações necessárias, reúna as pessoas da empresa em pequenos grupos e faça as seguintes perguntas para tentar obter novas ideias e estabelecer ações que melhorem o negócio:

  • O que deixa as pessoas felizes e que sustenta as principais forças da empresa?
  • O que deixa as pessoas felizes e que ajuda a superar as fraquezas da empresa?
  • O que deixa as pessoas tristes e que diminui as forças da empresa?
  • O que deixa as pessoas tristes e que colabora para as fraquezas da empresa?

Seguindo o mesmo raciocínio, você também pode relacionar o que deixa as pessoas felizes ou tristes no trabalho com as oportunidades e ameaças do mercado. Reunir as pessoas para responderem e debaterem sobre essas perguntas é tão importante quanto considerar sua felicidade no processo do planejamento estratégico.

Por fim, além de criar planos para posicionar adequadamente a empresa no seu mercado e tentar alcançar seus objetivos, também é necessário criar ações para transformar os pontos de tristezas em pontos de felicidade. Não existe planejamento estratégico que resista a um grupo de pessoas tristes. Por outro lado, um grupo de pessoas felizes pode alcançar ótimos resultados sem necessariamente fazer um planejamento estratégico.

10 ideias sobre “Felicidade no Planejamento Estratégico

  1. Otavio Macedo

    Legal, Matheus! Como sempre, um excelente texto.

    Mas me parece que há um impasse fundamental nessa coisa toda: as forças geradoras de tristeza são as mesmas que barram a mudança cultural que poderia eliminá-las. Considere o exemplo da figura. Um dos ítens no quadro “Tristezas” é “Autoridade e arrogância dos gerentes” (a propósito, eu usaria o termo “autoritarismo”, já que autoridade não é necessariamente um problema). Bem, se os gerentes são autoritários e arrogantes, qual seria a primeira coisa que eles fariam, ao ver um quadro desses colado na parede? No mínimo, remover o quadro e, possivelmente em seguida, intimidar e ameaçar a equipe.

    Empresas como a Webgoal, que já partem das premissas certas (ou, mais precisamente, premissas condizentes com a realidade do trabalho do conhecimento), conseguem naturalmente alcançar o resultado desejado. As demais, que ainda raciocinam em termos de “recursos humanos”, vão continuar causando insatisfação aos seus funcionários, por mais custoso que isso seja.

    Em outras palavras, parece que esse é um daqueles casos em que “ou você já é, ou nunca será”, e a situação só muda quando a geração atual de gerentes toda se aposentar. Quando isso acontecer, o mercado de trabalho alcançará mais felicidade, ainda que tardia.

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    1. matheus Autor do post

      Muito bom seu comentário, Otávio. Concordo com o seu ponto de vista.

      Para empresas que já estão percebendo que o mundo mudou e que as pessoas deveriam ser tratadas diferentes, essa é uma oportunidade para iniciar a mudança. Para empresas que não estão preocupadas com isso, nada funcionará (talvez nem mesmo quando todos se aposentarem… pois a cultura maldita de “recursos humanos” tende a se propagar).

      Ferramentas como a Análise HS+SWOT e o Happiness Canvas servem para ajudar nessa transição.

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  2. Prof. Fábio

    Prezado Mateus,

    Muito boa a sua abordagem sobre a felicidade nas empresas. Entro sempre neste quesito com meus alunos, dos cursos de Adm. e RH, mas pelo nosso perfil gerencial no Brasil e pelos traços culturais de nossos colaboradores, sempre vamos colocar nossos metas e objetivos subjulgados a uma felicidade oportunista, pouco definida em termos de resultados e com traços fortes de paternalismo. Sempre conscientizo as pessoas de que trabalhamos 8 horas por dia nas empresas, no melhor período do dia, e que é exatamente neste período que estamos ” vivendo” e necessitamos ser felizes nestas melhores horas do dia. O trabalho em nossa cultura ainda é visto como um castigo, um “Tripalium”, e cabe a nós gestores e educadores mudarmos essa concepção, que ainda esbarra na questão do perfil gerencial que ainda impera na maioria das empresas. Não podemos hoje ter uma visão ingênua dos colaboradores, como pregou Georges Elton Mayo, mas conscientizá-los de que o lado formal da organização é tão importante quanto o lado informal. Atingir eficácia através das pessoas é questão de Treinamento e Desenvolvimento(T&D), não somente de esperar que a felicidade aconteça espontaneamente nas organizações. Estarei adicionando sua visão às minhas aulas de Adm. Estratégica. Precisamos unir forças para mudar este quadro em nossas organizações.

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    1. matheus Autor do post

      Muito obrigado, Prof. Fábio. Realmente precisamos fazer algo maior para mudar o modelo atual de gestão que prevalece nas empresas.

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  3. Ana Carolina

    Bom dia Matheus,

    Eu sou a Ana Carolina estou concluindo o a graduação de Administração e estou terminando meu TCC. E vou fazer uma pesquisa de campo em uma Pequena empresa utilizando a Matriz SWOT e gostaria de pedir autorização para me basear no seu conteúdo postado e se qualquer dúvida que eu tiver se poderia enviar questões?

    Agradeço desde já!

    Atenciosamente.

    Ana

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  4. Fagner Gonçalves

    Boa noite, sou graduado em Administração a quase 1 ano e hoje, no nosso dia, resolvi dar uma revisada nessa interessante ferramenta e me deparo com sua visão e método. Parabéns! Seu olhar para as pessoas para além dos lucros (que claro, são importantíssimos), mas quase sempre olhada como único objetivo e esquecendo o que leva ao lucro são obviamente as pessoas. Hoje absorvo seu conhecimento, parabéns.

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  5. Éverton Bueno Lima

    Bom dia Matheus, excelente maneira de analisar a felicidade no trabalho, mas também analisando o que podemos melhorar para alcançar nosso objetivo não só a felicidade mas também como a empresa pode melhorar seus processos, fiquei com uma dúvida de como aplicar essa analise de HS+SWOT, essa dinâmica é recomendável aplicar em algum dia especifico? ou posso criar esse quadro e deixar que a equipe ao longo do mês vai atualizando o quadro e no final do mês nós reavaliamos esse quadro? caso seja recomendável realizar essa dinâmica uma vez por mês ou de outra maneira, ela substitui o Hapiness Canvas?

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    1. matheus Autor do post

      Obrigado pelo comentário, Éverton! Respondendo as suas perguntas: você pode utilizar a análise HS+SWOT quando você quiser para fazer uma avaliação de como está a empresa. Geralmente, as empresas utilizam no momento do planejamento estratégico (algumas empresas fazem no final do ano, outras no início do ano).

      A sua ideia de deixar o poster da análise HS+SWOT exposto durante um tempo para que todos colaborem é excelente (afinal, estamos buscando a participação de todos com uma ferramenta assim). Você pode também marcar uma reunião específica para fazer a análise HS+SWOT.

      Por fim, a análise HS+SWOT não substitui o Happiness Canvas. São ferramentas diferentes, para momentos diferentes. O Happiness Canvas é mais utilizado para avaliar a moral da equipe e o que podemos fazer para melhorá-la. Já o HS+SWOT está relacionado a estratégia da empresa e em como essa estratégia combina com as pessoas que irão executá-la.

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